Túneis de mim

Meu coração vive
em desalinho com
as estradas que
tenho percorrido
durante anos de
buscas sem sentido
por títulos infinitos
que só esvaziam e nada
preenchem.
Meu coração é a minha
estrada, não fui feita
para andar em linha reta
num sentido só, respeitando
a sinalização externa.

Meus sinais, meus freios,
meus limites são interiores.
Ultrapasso-me, mas não me
desrespeito…

Vivo entre os túneis de mim
nos meus subterrâneos
de eremita.

G.

Deus nos Livre…

…da soberba acadêmica!

És tão inalcançável assim?
És, de certo, o Super Homem,
aquele do Nietzsche.
Tu sabes, né? Nietzsche é a
tua cara…
Nenhum ser humano neste mundo
é digno do teu amor?
Será que tu te sentes o único
Doutor, soberano, inquestionável
neste mundo cada vez menos estável,
onde a academia virula igual epidemia?
Fico aqui a pensar em que bolha tu vives
para te sentires assim tão sobre-humano.
O teu Título te faz companhia ou somente
te esvazia?
Não encontrarei respostas, mas continuo
a orar por ti, sem Doutorado, mas “cheinha”
de amor!

G.

Voz

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Eu não gosto de me ouvir ao alto
com vozes e palavras que não
parecem sair de mim, mas saem.
Eu não gosto do tom da minha voz,
da gagueira inconsciente que me faz
repetir e pensar entre cada
fala com espaços maiores do que o
convencional.
Eu não gosto e gosto e não gosto de
me dar voz e, então, tive coragem
e fiz.
Desculpem-me pelos ruídos agridoces,
foi só uma tentativa de sair do
ostracismo.
G.

 

PARTO

Privar-me de buscar as
mensagens secretas do
teu rosto
definir o destino num sim
fugir de mim com o não…
Nada disso é o fim do sopro
da vida, embora haja partida.

Será que tu estás disposto
a renascer em meu ventre
depois que os tecidos brancos
tules,
rendas chantilly,
flores de laranjeira
e água benta
limparem o ouro
de nossas alianças?

G.

Vício Oculto

Sabes, hoje estudei Criminologia
e me lembrei de ti.
Não pelos teus pequenos delitos,
mas sim pela tua grande capacidade de
abstração sociológica.
Que papo mais intelectual só para dizer
que pensei em ti e lembrei
da “Teoria das Vidraças Quebradas”
e do quanto as minhas vidraças
estão trincadas
de ausência…

Não tem Kintsugi que dê jeito,
nenhum ouro vai ser capaz
de consertar as
rachaduras do tempo…
Talvez só o tempo
possa rejuntar
os cacos de vidro
frágeis
que se romperam
naquele dia de domingo.

Vou continuar na Criminologia
queria tanto
que tu estivesses aqui
a me explicar as teorias de
Barry Glasner,
Edwin Sutherlund,
Jane Jacobs…

…Fernando Pessoa,
Whitman, Lipovetsky

ou

só aqui mesmo
falando de amor,
enquanto eu
te lia e te escutava
nos detalhes
das tuas palavras.

G.

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Ilusão Poética

As “coisas” que se inspiram
em quem sente a chuva são
pessoas e não objetos.

Pessoas que sentem a chuva
amam a delicadeza das pequenas
gotas que precipitam dos céus
de um lugar de Deus
e só querem água
transparente
fluída
e abençoada.

Você, moço, que tem o poder de
sentir a chuva
tenha a fineza de compartilhar
tamanha sensibilidade
com quem ainda
está aprendendo
a nadar.

Deixa a ilusão poética te invadir
facilmente
não resista ao vício
da literatura!

Neste mundo duro,
só encontramos esperanças
no amor, nas letras, nas linhas
e
nas estradas que ligam
os encontros,
ainda que só no papel
ou nas redes.

Embriago-me com tua poesia e
iludo-me com uma gentileza
que nunca virá,
quiçá só nas palavras…

Iludo-me com as palavras.

As coisas, as pessoas, você e eu
somos, na verdade,
resultados de sonhos e
planejamentos de amor.

Permita-me sentir a chuva
numa escrita distante
em silêncio
ao lado teu…

G.

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Cacos do Cálice

Meus olhos se encheram
de lágrimas e cristais
do cálice de domingo,
quebrado, estilhaçado
pelo porre Nacional…
Desde lá meus olhos
doem e sangram pedaços
de desesperanças, uma
melancolia que só tem
alento quando olho para
as crianças e rogo a
Deus que os cacos do
cálice não limitem os
sorrisos infantis, a
doçura do olhar, o direito
de sonhar uma liberdade,
em liberdade.

G.