Açucar

Quando eu jogo açúcar demerara no café, faz um estalinho parecido com aquele da infância, de quando eu colocava na boca aquele granulado que explodia na língua. Lembra desse doce explosivo? Os cientistas explicaram que são cristais de açúcar que, sob pressão, armazenam gás carbônico e, por isso, explodem. Sob pressão. Explodem. Todo o cristal pode quebrar. Todo o açúcar pode explodir. Um ser humano doce também.

Melhor assim…

Defesa ou destruição
talvez seja só o medo
do não, talvez seja só
o medo do sim
ou quem sabe de mim
quiçá de ti
pode ser até de Nós
ou dos laços, fitilhos
delicados de amor que
poderiam me vincular
ao teu fruto de
uma forma irreversível… ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
Melhor assim.

Melhor fugir
melhor fingir
melhor bloquear
e não explicar
melhor evitar o pior
melhor usar o infinitivo
para tudo aquilo
que não tem fim
dentro de um verbo
que insiste
em morar mim.

Faz sentido para mim.

Esquecemos de conversar sobre Poe e até hoje não falamos sobre Kafka. Estamos sempre muito ocupados contando as estrelas vermelhas e planejando os dias de sol. As sombras desaparecem quando tu chegas e eu, finalmente, acredito em Deleuze. A tua estranheza conversa com a minha e, assim, temos um charme compartilhado. Este é o nosso segredo. Confio em ti. Confio no nosso segredo. Espero trinta e seis horas para ouvir tuas ideologias. Espero trinta e seis horas e só escuto sobre amor… talvez a tua ideologia seja exatamente isso, Amor. Faz sentido para mim. As pontas douradas dos teus cachos distantes já me fazem sonhar. Vem! Vem! Os nossos olhos já iluminam o nosso corpo.

Amei.

Ah, como amei!
Amei de um jeito
irremediável
amei o teu
lado obscuro
amei te ver
escrevendo
que ama o
ser humano
com a verdade
de quem sente
amei o vazio
dos teus olhos
e toda a tua ausência
amei a tua infância
introspectiva e a
tua adolescência
intelectual
amei toda a tua
solidão atual
amei a tua dor
teus passos e
até o teu desamor. ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
-Amei a ti e esqueci
de mim.

G.

É claro…

Planeja a vida
com a facilidade
de quem compra
pão francês no
bar da esquina
e depois volta
para casa
toma seu café
e pensa:
– hoje vou fazer
um filho… ⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀
depois de passar
a manteiga
no pão,
é claro.

Eu te escolhi, Não!

A minha incapacidade
de te dar as mãos
foi forjada
por anos de solidão.

O meu pretexto do Não
preso pelo quase sim
vive dentro de mim
como contradição de ser.

Não, busquei a ti!
Não, procurei por ti!
Não, tu és o meu
companheiro na reclusão.

A minha incapacidade
de te dar as mãos
não se reverterá
antes do tempo
que eu mesma escolhi.