Fragmentos de um quase Livro

[Esperando os não leitores de Pamuk :)]

Eu estudei em seis escolas diferentes, do ensino fundamental ao ensino médio. Meus pais não estavam preocupados com a minha estabilidade. Eles nem sabiam o que era estabilidade. Quando eu tinha dezenove anos, já acumulava umas vinte e cinco mudanças dentro de uma cidade só. Não era fácil. Um pai instável, uma mãe dependente e, Eu, no meio do furacão. Conheci a alta sociedade gaúcha na intimidade – o lixo do rico fede tanto ou até mais que o do pobre. Morava num porão úmido, fétido, escuro. Do lado de fora, um gerador de luz fazia barulho infernal nos dias de falta de energia e os canos de esgotos dos luxuosos apartamentos eram colados ao lado de minha casa, no porão. O único alento era ir até a janela e olhar o céu, as estrelas, o sol. Tinha um pequeno jardim, também, onde eu podia por alguns instantes sonhar com a beleza das flores e perceber que elas precisam de um tempo para sair de si. Eu, menina de tudo, só queria ser feliz naquele estranho mundo de pessoas ricas e muito infelizes. Sabe, me cortava o coração ver o menininho esperando a atenção do pai e o carinho da mãe – ambos estavam muito ocupados para o amor. Um dia subi as escadas e fui para o salão de festa. Lá era muito bonito, iluminado, decorado, um sonho distante do porão. Levei meus cadernos e livros e me pus a estudar com toda aquela luz a me iluminar, finalmente… Foi aí que a mulher desceu da cobertura para tomar banho de sol, passou por mim, não deu bom dia e já saiu dizendo: -Isto aqui não é biblioteca, Menina. Você não pode estudar aqui. Ah, como me doeu ouvir esta frase. Eu só queria um pouquinho de luz para fazer minhas lições não queria propriamente a luz da cobertura, mas ansiava pela luz do sol a clarear meus livros e o meu futuro. Ela não queria dividir a luz comigo. O espaço de claridade também era exclusivo àqueles que estavam no mesmo nível dos céus. Como são tristes as pessoas que vivem no alto (…)

G.

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Quem Me Dera (Mariza)

Eu poderia ter escrito esse poema, mas a Mariza escreveu e ainda cantou e me encantou, roubou minhas palavras e transformou em música.

Que mais tem de acontecer no mundo
Para inverter o teu coração pra mim
Que quantidade de lágrimas devo deixar cair
Que Flor tem que nascer
para ganhar o teu amor

Por esse amor meu Deus
Eu faço tudo
Declamo os poemas mais lindos do universo
A ver se te convenço
Que a minha alma nasceu para ti

Será preciso um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para seguir

Quem me dera
Abraçar-te no outono verão e primavera
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração

Será preciso uma tempestade
Para perceberes que o meu amor é de verdade
Te procuro nos outdoors da cidade, nas luzes dos faróis
Nos meros mortais como nós
O meu amor é puro é tão grande e resistente como embondeiro
Por ti eu vou onde nunca iria
Por ti eu sou o que nunca seria

Eu preciso de um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para viver

Quem me dera
Abraçar-te no outono verão e primavera
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração

Catarina quase Platônica

[Um platonismo nada virtuoso].

Posso, Eu, idealizar a estupidez
amar o escapismo
encantar-me com a grosseria
sonhar com o desafio de amar
o imperfeito e sublimar a tua
amargura que tanto pede cura?

Posso, Eu, querer-te assim
endurecido
bruto, cru, nu
cheio de si – uma unicidade humana
que pede compreensão?

Posso, Eu, ser humano sensível
à flor da pele
querer-te arrogante
autoritário e melindroso
um Petruchio tropical
um caipira animal?

Posso!
Nenhuma filosofia, literatura
ou caricatura me cegam à tua
verdade.
Estaria, Eu, ser humano
delicado, a perder o tino
ao amar-te?

Sinto vontade de te domar
numa doma racional
amansar-te sem força pela
suavidade de minha voz numa
espécie de comunicação não
violenta equina.

Eu, Catarina quase  platônica,
não desistirei de te curar
fui domada pela vida para
um dia te encontrar e nada
neste mundo é capaz de frear
a minha insistente capacidade
de amar.

G.

Deus nos Livre…

…da soberba acadêmica!

És tão inalcançável assim?
És, de certo, o Super Homem,
aquele do Nietzsche.
Tu sabes, né? Nietzsche é a
tua cara…
Nenhum ser humano neste mundo
é digno do teu amor?
Será que tu te sentes o único
Doutor, soberano, inquestionável
neste mundo cada vez menos estável,
onde a academia virula igual epidemia?
Fico aqui a pensar em que bolha tu vives
para te sentires assim tão sobre-humano.
O teu Título te faz companhia ou somente
te esvazia?
Não encontrarei respostas, mas continuo
a orar por ti, sem Doutorado, mas “cheinha”
de amor!

G.

O CULTO OCULTO

Acordei de madrugada, insone,
preocupada. Deixei fluir meus
sentimentos, estava muito
angustiada. Tuas revelações
mexeram comigo, deixara-me
impressionada com a capacidade
do ser humano em ter uma vida
camuflada. Não dormi de tanto
pensar, com pesar, no amor que
tive pela máscara que o homem
usava e usa, ainda, no seu rosto
sereno de Poeta.
Sempre fui discreta. Se te invadi,
foi porque deixaste. E tu, homem,
me revelaste os extremos de uma
relação. Fui, contigo, do Céu ao
Inferno em oração.
A minha insônia desgarrada, no
escuro, é por puro assombro do
futuro que um dia prospectei
para Nós.
Acordei de madrugada e o anjo
cintilante soprou nos meus
ouvidos: – Filha, amaste. Amas
ainda, apesar da realidade e é
nisto que consiste toda a tua
verdade.
Acalmei-me, então, em um instante,
e te envolvi, distante, numa luz
brilhante de perdão.
Permiti que as rimas infantis
suavizassem este meu coração
adulto, que um dia acreditou
num falso Culto, que peregrina pelo
mundo sem fé no amor.

G.

Ansiedade

Ela abre de cinco em cinco
minutos o aplicativo de conversas
do celular.
Abriu agora, fechou, abriu de novo
– não se passaram nem três minutos.
Quem sabe na rede social de amizade,
aquela onde as pessoas se
adicionam?
Ela vai. Abre a janelinha da
rede social, abre a janelinha
das mensagens e encontra um vazio.
Nada. Nadinha. Nem uma notificação.
Agora, só resta a ela o aplicativo
de fotos. Será que ele gostou da foto?
Será que ele chamou a moça para uma
conversa direta? Será que na conversa
direta ele convidou a moça para
tomar um café?
Será que depois do café vai rolar
um cinema?
Será que no outro dias eles vão no
parque e ele vai segurar a mão dela
assim, de repente, devagar?
Ela abre as mensagens diretas.
Não tem nada.
O coração
aperta.
A angústia toma conta.
Fica impaciente, tensa, sentimental,
chorona.
Toca o interfone.
Quem será que vem roubar o desespero
da moça?
Momentos assim são sagrados
e precisam ser vividos, chorados, doloridos,
remoídos como um moinho de vento.
A moça fala oi e
escuta: – desce, Meu bem,
vim te buscar,
vim te amar
ao vivo…

G.

Voz

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Eu não gosto de me ouvir ao alto
com vozes e palavras que não
parecem sair de mim, mas saem.
Eu não gosto do tom da minha voz,
da gagueira inconsciente que me faz
repetir e pensar entre cada
fala com espaços maiores do que o
convencional.
Eu não gosto e gosto e não gosto de
me dar voz e, então, tive coragem
e fiz.
Desculpem-me pelos ruídos agridoces,
foi só uma tentativa de sair do
ostracismo.
G.