Raízes da Dor

Eu queria arrancar
todas estas raízes
que plantaste
e
vingaram profundamente
dentro de mim
invadindo todos os espaços
ocupando meu coração,
sufocando os meus pulmões,
preenchendo a boca do meu
estômago de fúria,
metade amor, metade dor…

Ainda não sei te dizer
o que mais dói: arrancar-te
daqui ou deixar-te invadir
até alcançar as minhas artérias.

Ainda não sei de que forma tu
conseguiste sumir e ao mesmo
tempo ainda estar aqui crescendo,
crescendo, crescendo…
e eu morrendo
não me rendo
de tanto amor
que há em mim.

As raízes profundas
que sustentam a envergadura
são as mesmas que causam a
rachadura
no esteio
onde eu
coloco
os meus pés.

G.

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Sem fim

Por que vieste me roubar num
dia de janeiro solitário em
que eu me encontrava em paz com
meus livros, incensos, xícara de
café, Evangelho e silêncio?

Desde este dia não pertenço mais
ao meu Eu, nem Eu sou, nem Eu
sei onde estou, não sei nem para
onde vou. Por que me assaltaste
assim tirando de mim aquilo que
sempre foi somente meu?

Nunca dei meu coração.
Nunca abri a minha emoção.
Nunca senti tanta comoção.
Nunca vivi uma alucinação.
Nunca fiz declaração de amor…

…antes de tu me roubares de mim.

Só compreendi o que é o amor
depois de ti.
Por favor,
devolva-me,
mas não estabeleça
um
fim.

G.

1964 de 2019

Eu nunca escondi que estava
a te analisar
eu nunca menti ao te poetizar
eu nunca escrevi sem o teu autorizar.
Agora, não me venha com censura!

1964 de 2019 afetou teu juízo, de certo?

Tenho a licença poética da vida, dos
meus sentimentos, do meu mundo
subjetivo e, inclusive, a tua num
“print” inquestionável de um pedido
claro: – Poetisa, quando vais me
transformar em palavras novamente?
A minha resposta foi inequívoca, eu
te disse que brevemente te colocaria
na linha e nas linhas
e
tu aceitaste com
um “Claro!”.

Tu me erotizaste em todos os teus textos,
por que não posso eu te transformar em
poesia?
Talvez, porque eu seja mulher e mulher
não pode gritar, precisa da delicadeza
da flor de seda e do silêncio a lhe abafar.

Escrevo. Continuarei a escrever. Nada me
impede de sonhar, imaginar e amar.
Nada nem ninguém conseguirá cortar
minhas asas.
Posso voar até de paraquedas,
mas não finco meus pés no chão.

G.

PALMEIRA

Tentaram cortá-la aos quatro anos,
ainda era uma mudinha, mas as
raízes eram fortes. Arranhou-se.
As cicatrizes apareceram aos
dezoito. Cresceu. Temporais
vieram, raios estremeceram,
chuvas, vendavais, tornados,
fenômenos naturais. O ser humano
a tentar lhe descascar, puxa folha
por folha até sangrar. Não sangra
por fora, estanca por dentro. Resiste.
Resiste ainda para além dos trinta.
Copas verdes com pés fincados
no solo. Estratégia de Palmeira
para sobreviver com um coração
íntegro a forjar sua solidez.

G.

Faltas…

Como é triste ler os clássicos, engolir eruditismos e depois vomitar somente o escatológico de um pequeno detalhe de uma grande obra ou de um grande Autor. Como é feio não ter humildade nesta vida para reconhecer que sempre é tempo de aprender e que ensinar também faz parte do processo. Como é comovente ver um ser humano dolorido coberto de defesas que mais expõem do que protegem. Como é hilariante ver quem não se conhece tentando conhecer o outro. Como é melindrosa a visão da arrogância universitária quase juvenil do ser humano tresloucado.  Um ser humano perdido em si, que não reconhece a sua própria condição humana, é certamente o objeto que merece o meu amor mais puro, o perdão mais bonito, o sorriso mais leve, o abraço mais carinhoso, o bom dia mais afetuoso, e as minhas melhores preces de luz.

– Nunca te passou pela cabeça que toda esta confusão em que te encontras é só falta de amor?

G.

Fragmentos de um quase Livro

[Esperando os não leitores de Pamuk :)]

Eu estudei em seis escolas diferentes, do ensino fundamental ao ensino médio. Meus pais não estavam preocupados com a minha estabilidade. Eles nem sabiam o que era estabilidade. Quando eu tinha dezenove anos, já acumulava umas vinte e cinco mudanças dentro de uma cidade só. Não era fácil. Um pai instável, uma mãe dependente e, Eu, no meio do furacão. Conheci a alta sociedade gaúcha na intimidade – o lixo do rico fede tanto ou até mais que o do pobre. Morava num porão úmido, fétido, escuro. Do lado de fora, um gerador de luz fazia barulho infernal nos dias de falta de energia e os canos de esgotos dos luxuosos apartamentos eram colados ao lado de minha casa, no porão. O único alento era ir até a janela e olhar o céu, as estrelas, o sol. Tinha um pequeno jardim, também, onde eu podia por alguns instantes sonhar com a beleza das flores e perceber que elas precisam de um tempo para sair de si. Eu, menina de tudo, só queria ser feliz naquele estranho mundo de pessoas ricas e muito infelizes. Sabe, me cortava o coração ver o menininho esperando a atenção do pai e o carinho da mãe – ambos estavam muito ocupados para o amor. Um dia subi as escadas e fui para o salão de festa. Lá era muito bonito, iluminado, decorado, um sonho distante do porão. Levei meus cadernos e livros e me pus a estudar com toda aquela luz a me iluminar, finalmente… Foi aí que a mulher desceu da cobertura para tomar banho de sol, passou por mim, não deu bom dia e já saiu dizendo: -Isto aqui não é biblioteca, Menina. Você não pode estudar aqui. Ah, como me doeu ouvir esta frase. Eu só queria um pouquinho de luz para fazer minhas lições não queria propriamente a luz da cobertura, mas ansiava pela luz do sol a clarear meus livros e o meu futuro. Ela não queria dividir a luz comigo. O espaço de claridade também era exclusivo àqueles que estavam no mesmo nível dos céus. Como são tristes as pessoas que vivem no alto (…)

G.

Quem Me Dera (Mariza)

Eu poderia ter escrito esse poema, mas a Mariza escreveu e ainda cantou e me encantou, roubou minhas palavras e transformou em música.

Que mais tem de acontecer no mundo
Para inverter o teu coração pra mim
Que quantidade de lágrimas devo deixar cair
Que Flor tem que nascer
para ganhar o teu amor

Por esse amor meu Deus
Eu faço tudo
Declamo os poemas mais lindos do universo
A ver se te convenço
Que a minha alma nasceu para ti

Será preciso um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para seguir

Quem me dera
Abraçar-te no outono verão e primavera
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração

Será preciso uma tempestade
Para perceberes que o meu amor é de verdade
Te procuro nos outdoors da cidade, nas luzes dos faróis
Nos meros mortais como nós
O meu amor é puro é tão grande e resistente como embondeiro
Por ti eu vou onde nunca iria
Por ti eu sou o que nunca seria

Eu preciso de um milagre
Para que o meu coração se alegre
Juro não vou desistir
Faça chuva faça sol
Porque eu preciso de ti para viver

Quem me dera
Abraçar-te no outono verão e primavera
Quiçá viver além uma quimera
Herdar a sorte e ganhar teu coração