Túneis de mim

Meu coração vive
em desalinho com
as estradas que
tenho percorrido
durante anos de
buscas sem sentido
por títulos infinitos
que só esvaziam e nada
preenchem.
Meu coração é a minha
estrada, não fui feita
para andar em linha reta
num sentido só, respeitando
a sinalização externa.

Meus sinais, meus freios,
meus limites são interiores.
Ultrapasso-me, mas não me
desrespeito…

Vivo entre os túneis de mim
nos meus subterrâneos
de eremita.

G.

Anúncios

Pare!

Pare de pensar que o mundo
conspira contra ti.
Pare de enxergar o outro como
teu perseguidor, inimigo,
“Stalker”, julgador.
Pare de fugir do afeto que te ofertam.
Pare de fingir que não sente,
porque teus olhos
não mentem
e tua voz,
doce deleite,
te denúncia sensível,
homem bonito,
cheio de luz.

Pare!

Pare de segurar essa vontade de amar
e caminhe em direção ao encontro com
a vida, confiante de que
a tua sabedoria interior
te permite dar e receber amor,
ajuda, proteção, generosidade,
bondade e compassividade
com todos os que cruzam
o teu caminho.
Não espere o tempo passar
para buscar os olhos do teu irmão
e os abraços de tua mãe
e, se possível,
estenda estas mesmas ações
aos teus semelhantes
que esperam pela tua compaixão,
pois são donos da mesma
imperfeição que habita a
tua condição demasiadamente
humana.

G.

Raízes da Dor

Eu queria arrancar
todas estas raízes
que plantaste
e
vingaram profundamente
dentro de mim
invadindo todos os espaços
ocupando meu coração,
sufocando os meus pulmões,
preenchendo a boca do meu
estômago de fúria,
metade amor, metade dor…

Ainda não sei te dizer
o que mais dói: arrancar-te
daqui ou deixar-te invadir
até alcançar as minhas artérias.

Ainda não sei de que forma tu
conseguiste sumir e ao mesmo
tempo ainda estar aqui crescendo,
crescendo, crescendo…
e eu morrendo
não me rendo
de tanto amor
que há em mim.

As raízes profundas
que sustentam a envergadura
são as mesmas que causam a
rachadura
no esteio
onde eu
coloco
os meus pés.

G.

Sem fim

Por que vieste me roubar num
dia de janeiro solitário em
que eu me encontrava em paz com
meus livros, incensos, xícara de
café, Evangelho e silêncio?

Desde este dia não pertenço mais
ao meu Eu, nem Eu sou, nem Eu
sei onde estou, não sei nem para
onde vou. Por que me assaltaste
assim tirando de mim aquilo que
sempre foi somente meu?

Nunca dei meu coração.
Nunca abri a minha emoção.
Nunca senti tanta comoção.
Nunca vivi uma alucinação.
Nunca fiz declaração de amor…

…antes de tu me roubares de mim.

Só compreendi o que é o amor
depois de ti.
Por favor,
devolva-me,
mas não estabeleça
um
fim.

G.

PALMEIRA

Tentaram cortá-la aos quatro anos,
ainda era uma mudinha, mas as
raízes eram fortes. Arranhou-se.
As cicatrizes apareceram aos
dezoito. Cresceu. Temporais
vieram, raios estremeceram,
chuvas, vendavais, tornados,
fenômenos naturais. O ser humano
a tentar lhe descascar, puxa folha
por folha até sangrar. Não sangra
por fora, estanca por dentro. Resiste.
Resiste ainda para além dos trinta.
Copas verdes com pés fincados
no solo. Estratégia de Palmeira
para sobreviver com um coração
íntegro a forjar sua solidez.

G.

Faltas…

Como é triste ler os clássicos, engolir eruditismos e depois vomitar somente o escatológico de um pequeno detalhe de uma grande obra ou de um grande Autor. Como é feio não ter humildade nesta vida para reconhecer que sempre é tempo de aprender e que ensinar também faz parte do processo. Como é comovente ver um ser humano dolorido coberto de defesas que mais expõem do que protegem. Como é hilariante ver quem não se conhece tentando conhecer o outro. Como é melindrosa a visão da arrogância universitária quase juvenil do ser humano tresloucado.  Um ser humano perdido em si, que não reconhece a sua própria condição humana, é certamente o objeto que merece o meu amor mais puro, o perdão mais bonito, o sorriso mais leve, o abraço mais carinhoso, o bom dia mais afetuoso, e as minhas melhores preces de luz.

– Nunca te passou pela cabeça que toda esta confusão em que te encontras é só falta de amor?

G.

Fragmentos de um quase Livro

[Esperando os não leitores de Pamuk :)]

Eu estudei em seis escolas diferentes, do ensino fundamental ao ensino médio. Meus pais não estavam preocupados com a minha estabilidade. Eles nem sabiam o que era estabilidade. Quando eu tinha dezenove anos, já acumulava umas vinte e cinco mudanças dentro de uma cidade só. Não era fácil. Um pai instável, uma mãe dependente e, Eu, no meio do furacão. Conheci a alta sociedade gaúcha na intimidade – o lixo do rico fede tanto ou até mais que o do pobre. Morava num porão úmido, fétido, escuro. Do lado de fora, um gerador de luz fazia barulho infernal nos dias de falta de energia e os canos de esgotos dos luxuosos apartamentos eram colados ao lado de minha casa, no porão. O único alento era ir até a janela e olhar o céu, as estrelas, o sol. Tinha um pequeno jardim, também, onde eu podia por alguns instantes sonhar com a beleza das flores e perceber que elas precisam de um tempo para sair de si. Eu, menina de tudo, só queria ser feliz naquele estranho mundo de pessoas ricas e muito infelizes. Sabe, me cortava o coração ver o menininho esperando a atenção do pai e o carinho da mãe – ambos estavam muito ocupados para o amor. Um dia subi as escadas e fui para o salão de festa. Lá era muito bonito, iluminado, decorado, um sonho distante do porão. Levei meus cadernos e livros e me pus a estudar com toda aquela luz a me iluminar, finalmente… Foi aí que a mulher desceu da cobertura para tomar banho de sol, passou por mim, não deu bom dia e já saiu dizendo: -Isto aqui não é biblioteca, Menina. Você não pode estudar aqui. Ah, como me doeu ouvir esta frase. Eu só queria um pouquinho de luz para fazer minhas lições não queria propriamente a luz da cobertura, mas ansiava pela luz do sol a clarear meus livros e o meu futuro. Ela não queria dividir a luz comigo. O espaço de claridade também era exclusivo àqueles que estavam no mesmo nível dos céus. Como são tristes as pessoas que vivem no alto (…)

G.