Espaços Exclusivos

Oi, tudo bem? Vamos conversar?
Eu só queria te contar sobre o
meu dia e saber como foi o teu,
mas a vida comum ainda não nos
permitiu essa proximidade.
Será que é tão importante descobrir
quem de nós errou mais?
Será que estamos na disputa certa?
Eu errei.
Tu erraste.
Estamos empatados.
Pensei num jogo de dados
ou pedra, papel e tesoura
ou, então, o jogo dos palitinhos.
A verdade é que eu não quero desempatar.
Eu só quero recomeçar e aprender a te amar.
Tu poderias, pelo menos, reconsiderar todo
este meu esforço para te alcançar.
Eu não iria atrás se tu, ser humano, não
fosse importante demais.
Teu espaço dentro de mim é tão exclusivo,
único, não cabe mais ninguém.
Poderá até aparecer outras opções, mas
nenhuma delas te substituirá.
Quando eu te disse que gostava de negócios
mais exclusivos, estava a falar disso, de
espaços que foram moldados sob medida
para um só ser humano.
Será que em ti haverá, algum dia,
um espaço assim para mim?
O teu continua aqui, seguro como
um tesouro.

G.

PARTO

Privar-me de buscar as
mensagens secretas do
teu rosto
definir o destino num sim
fugir de mim com o não…
Nada disso é o fim do sopro
da vida, embora haja partida.

Será que tu estás disposto
a renascer em meu ventre
depois que os tecidos brancos
tules,
rendas chantilly,
flores de laranjeira
e água benta
limparem o ouro
de nossas alianças?

G.

Chama Estrelar

Hoje percebi que o amor pode ser
igual uma vela palito teimosa,
essas de aniversário de efeito cometa,
que acende vagarosamente faíscas de luz
para iluminar nossos olhos e aquecer
o nosso coração.
O palito teimoso apaga e reacende
para nos dar esperanças,
novas possibilidades
de persistência.
O amor só pode ser um cometa
cheio de luzinhas pisca-pisca
que aparece assim
num piscar de olhos
de um dia qualquer,
singelo como esta escrita.
Calma, meu bem,
devagarinho ele te alcança
feito chama estrelar.

G.

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Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 4.0 Internacional.

KINTSUGI SENTIMENTAL

Vamos falar de nossas dores, sentadas naquela escada
do clube onde, há anos atrás, só falávamos
de nossos sonhos, de nossos príncipes e de nossos
tempos e recordes e medalhas.
Vamos conversar sobre a vida, sobre as nossas meninas feridas
e sobre o quanto sofremos, ainda, com o choro que
elas rompem, no silêncio da noite, quando todos dormem
e, nós, ainda acordadas, tentamos decifrar nossos enigmas íntimos.
Não há mais tempo para fingirmos que não sentimos
nossos pais embriagados de faltas e nossas mães sorrindo
para este mundo com dentes brancos, corações apertados e olhos escuros.
Já chegamos na maturidade de nossos sentimentos,
que pulsam em nossos corações verdes, de verdades,
por isso não há mais tempo para querermos o tempo de volta.
Resta-nos, agora, buscar o feixe luminoso que perdemos lá atrás
e, então, caminharmos com o farol nas mãos,
mirando nos pés e, às vezes, na cara.
Vamos conversar sobre a nossa verdade,
essa que nos engole todos os dias e que colorimos
de dourado, com Scarpin de sola vermelha, bolsa grifada e cabelos alinhados.
Vamos, juntas, deixar nossos cachos confusos
soltos ao vento para respirar.
Não há mais tempo para ignorarmos nossas fissuras,
porque somos figuras humanas e resultado de nossas ancestralidades.
Podemos, porém, resgatar nossa sororidade,
como um hábito que vestimos sobre a pele,
e sermos irmãs em nossas sombras e angústias,
deixando de lado o desamor do mundo e dos homens.
Quanto as fissuras, penso que a técnica oriental de preenchimento
com ouro pode resultar em uma arte tão mais linda quanto
esta que ostentamos tão falsamente nos alinhos da vida.

G.
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Cacos do Cálice

Meus olhos se encheram
de lágrimas e cristais
do cálice de domingo,
quebrado, estilhaçado
pelo porre Nacional…
Desde lá meus olhos
doem e sangram pedaços
de desesperanças, uma
melancolia que só tem
alento quando olho para
as crianças e rogo a
Deus que os cacos do
cálice não limitem os
sorrisos infantis, a
doçura do olhar, o direito
de sonhar uma liberdade,
em liberdade.

G.