Túneis de mim

Meu coração vive
em desalinho com
as estradas que
tenho percorrido
durante anos de
buscas sem sentido
por títulos infinitos
que só esvaziam e nada
preenchem.
Meu coração é a minha
estrada, não fui feita
para andar em linha reta
num sentido só, respeitando
a sinalização externa.

Meus sinais, meus freios,
meus limites são interiores.
Ultrapasso-me, mas não me
desrespeito…

Vivo entre os túneis de mim
nos meus subterrâneos
de eremita.

G.

Pare!

Pare de pensar que o mundo
conspira contra ti.
Pare de enxergar o outro como
teu perseguidor, inimigo,
“Stalker”, julgador.
Pare de fugir do afeto que te ofertam.
Pare de fingir que não sente,
porque teus olhos
não mentem
e tua voz,
doce deleite,
te denúncia sensível,
homem bonito,
cheio de luz.

Pare!

Pare de segurar essa vontade de amar
e caminhe em direção ao encontro com
a vida, confiante de que
a tua sabedoria interior
te permite dar e receber amor,
ajuda, proteção, generosidade,
bondade e compassividade
com todos os que cruzam
o teu caminho.
Não espere o tempo passar
para buscar os olhos do teu irmão
e os abraços de tua mãe
e, se possível,
estenda estas mesmas ações
aos teus semelhantes
que esperam pela tua compaixão,
pois são donos da mesma
imperfeição que habita a
tua condição demasiadamente
humana.

G.

Sem fim

Por que vieste me roubar num
dia de janeiro solitário em
que eu me encontrava em paz com
meus livros, incensos, xícara de
café, Evangelho e silêncio?

Desde este dia não pertenço mais
ao meu Eu, nem Eu sou, nem Eu
sei onde estou, não sei nem para
onde vou. Por que me assaltaste
assim tirando de mim aquilo que
sempre foi somente meu?

Nunca dei meu coração.
Nunca abri a minha emoção.
Nunca senti tanta comoção.
Nunca vivi uma alucinação.
Nunca fiz declaração de amor…

…antes de tu me roubares de mim.

Só compreendi o que é o amor
depois de ti.
Por favor,
devolva-me,
mas não estabeleça
um
fim.

G.

PALMEIRA

Tentaram cortá-la aos quatro anos,
ainda era uma mudinha, mas as
raízes eram fortes. Arranhou-se.
As cicatrizes apareceram aos
dezoito. Cresceu. Temporais
vieram, raios estremeceram,
chuvas, vendavais, tornados,
fenômenos naturais. O ser humano
a tentar lhe descascar, puxa folha
por folha até sangrar. Não sangra
por fora, estanca por dentro. Resiste.
Resiste ainda para além dos trinta.
Copas verdes com pés fincados
no solo. Estratégia de Palmeira
para sobreviver com um coração
íntegro a forjar sua solidez.

G.

Faltas…

Como é triste ler os clássicos, engolir eruditismos e depois vomitar somente o escatológico de um pequeno detalhe de uma grande obra ou de um grande Autor. Como é feio não ter humildade nesta vida para reconhecer que sempre é tempo de aprender e que ensinar também faz parte do processo. Como é comovente ver um ser humano dolorido coberto de defesas que mais expõem do que protegem. Como é hilariante ver quem não se conhece tentando conhecer o outro. Como é melindrosa a visão da arrogância universitária quase juvenil do ser humano tresloucado.  Um ser humano perdido em si, que não reconhece a sua própria condição humana, é certamente o objeto que merece o meu amor mais puro, o perdão mais bonito, o sorriso mais leve, o abraço mais carinhoso, o bom dia mais afetuoso, e as minhas melhores preces de luz.

– Nunca te passou pela cabeça que toda esta confusão em que te encontras é só falta de amor?

G.

Catarina quase Platônica

[Um platonismo nada virtuoso].

Posso, Eu, idealizar a estupidez
amar o escapismo
encantar-me com a grosseria
sonhar com o desafio de amar
o imperfeito e sublimar a tua
amargura que tanto pede cura?

Posso, Eu, querer-te assim
endurecido
bruto, cru, nu
cheio de si – uma unicidade humana
que pede compreensão?

Posso, Eu, ser humano sensível
à flor da pele
querer-te arrogante
autoritário e melindroso
um Petruchio tropical
um caipira animal?

Posso!
Nenhuma filosofia, literatura
ou caricatura me cegam à tua
verdade.
Estaria, Eu, ser humano
delicado, a perder o tino
ao amar-te?

Sinto vontade de te domar
numa doma racional
amansar-te sem força pela
suavidade de minha voz numa
espécie de comunicação não
violenta equina.

Eu, Catarina quase  platônica,
não desistirei de te curar
fui domada pela vida para
um dia te encontrar e nada
neste mundo é capaz de frear
a minha insistente capacidade
de amar.

G.

Deus nos Livre…

…da soberba acadêmica!

És tão inalcançável assim?
És, de certo, o Super Homem,
aquele do Nietzsche.
Tu sabes, né? Nietzsche é a
tua cara…
Nenhum ser humano neste mundo
é digno do teu amor?
Será que tu te sentes o único
Doutor, soberano, inquestionável
neste mundo cada vez menos estável,
onde a academia virula igual epidemia?
Fico aqui a pensar em que bolha tu vives
para te sentires assim tão sobre-humano.
O teu Título te faz companhia ou somente
te esvazia?
Não encontrarei respostas, mas continuo
a orar por ti, sem Doutorado, mas “cheinha”
de amor!

G.