O CULTO OCULTO

Acordei de madrugada, insone,
preocupada. Deixei fluir meus
sentimentos, estava muito
angustiada. Tuas revelações
mexeram comigo, deixara-me
impressionada com a capacidade
do ser humano em ter uma vida
camuflada. Não dormi de tanto
pensar, com pesar, no amor que
tive pela máscara que o homem
usava e usa, ainda, no seu rosto
sereno de Poeta.
Sempre fui discreta. Se te invadi,
foi porque deixaste. E tu, homem,
me revelaste os extremos de uma
relação. Fui, contigo, do Céu ao
Inferno em oração.
A minha insônia desgarrada, no
escuro, é por puro assombro do
futuro que um dia prospectei
para Nós.
Acordei de madrugada e o anjo
cintilante soprou nos meus
ouvidos: – Filha, amaste. Amas
ainda, apesar da realidade e é
nisto que consiste toda a tua
verdade.
Acalmei-me, então, em um instante,
e te envolvi, distante, numa luz
brilhante de perdão.
Permiti que as rimas infantis
suavizassem este meu coração
adulto, que um dia acreditou
num falso Culto, que peregrina pelo
mundo sem fé no amor.

G.

Ansiedade

Ela abre de cinco em cinco
minutos o aplicativo de conversas
do celular.
Abriu agora, fechou, abriu de novo
– não se passaram nem três minutos.
Quem sabe na rede social de amizade,
aquela onde as pessoas se
adicionam?
Ela vai. Abre a janelinha da
rede social, abre a janelinha
das mensagens e encontra um vazio.
Nada. Nadinha. Nem uma notificação.
Agora, só resta a ela o aplicativo
de fotos. Será que ele gostou da foto?
Será que ele chamou a moça para uma
conversa direta? Será que na conversa
direta ele convidou a moça para
tomar um café?
Será que depois do café vai rolar
um cinema?
Será que no outro dias eles vão no
parque e ele vai segurar a mão dela
assim, de repente, devagar?
Ela abre as mensagens diretas.
Não tem nada.
O coração
aperta.
A angústia toma conta.
Fica impaciente, tensa, sentimental,
chorona.
Toca o interfone.
Quem será que vem roubar o desespero
da moça?
Momentos assim são sagrados
e precisam ser vividos, chorados, doloridos,
remoídos como um moinho de vento.
A moça fala oi e
escuta: – desce, Meu bem,
vim te buscar,
vim te amar
ao vivo…

G.

Voz

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Eu não gosto de me ouvir ao alto
com vozes e palavras que não
parecem sair de mim, mas saem.
Eu não gosto do tom da minha voz,
da gagueira inconsciente que me faz
repetir e pensar entre cada
fala com espaços maiores do que o
convencional.
Eu não gosto e gosto e não gosto de
me dar voz e, então, tive coragem
e fiz.
Desculpem-me pelos ruídos agridoces,
foi só uma tentativa de sair do
ostracismo.
G.

 

Que pena de nós

Você não precisa sentir
vergonha por ter errado.
Todos nós erramos e erraremos
muito ainda nesta vida.
Não fiquei ferida.
Não me senti atingida.
Eu, apenas, senti uma
pena de nós.
É… uma pena de nós,
porque estávamos aos poucos
construindo uma edificação,
que poderia um dia ter vista
para praia

um mar verde,
um céu azul,
um sol dourado
e o nosso amor.

G.

Vem!

Eu não queria ter te magoado,
só queria que tu refletisse
sobre as tuas próprias palavras
e sentisse um pouquinho da dor e
tristeza que também senti ao lê-las.
Fiquei com o coração apertado,
não esperava ser atingida assim.
É tão difícil para ti entender
que o amor não é fogo doido?
O fogo doido faz parte,
mas não é o amor.
O amor nasce com a capacidade de
perdoar e abraçar defeitos e dores,
que precisam de curas,
em mim e em ti.
As palavras que tu me escreveste foram
duras, talvez, por isso, tu tenhas ficado
mal ao ler minhas angústias compartilhadas
publicamente.
Eu sei, não é legal se ver no espelho.
Eu não gosto. Tu não gostas.
Acontece que somos espelhos, meu bem.
Eu te leio, tu me lês, eu te olho, tu
me olhas e refletimos muito mais do que
gostaríamos.
Nesse jogo transparente, projetamos de
nossos inconscientes heranças ancestrais,
dores, traumas e nossas crianças feridas,
que aparecem, volta e meia, para nos visitar
e pedir colo.
Para que resistir?
Vem perdoar,
vem pedir perdão,
vem me amar.

G.

PARTO

Privar-me de buscar as
mensagens secretas do
teu rosto
definir o destino num sim
fugir de mim com o não…
Nada disso é o fim do sopro
da vida, embora haja partida.

Será que tu estás disposto
a renascer em meu ventre
depois que os tecidos brancos
tules,
rendas chantilly,
flores de laranjeira
e água benta
limparem o ouro
de nossas alianças?

G.

Ilusão Poética

As “coisas” que se inspiram
em quem sente a chuva são
pessoas e não objetos.

Pessoas que sentem a chuva
amam a delicadeza das pequenas
gotas que precipitam dos céus
de um lugar de Deus
e só querem água
transparente
fluída
e abençoada.

Você, moço, que tem o poder de
sentir a chuva
tenha a fineza de compartilhar
tamanha sensibilidade
com quem ainda
está aprendendo
a nadar.

Deixa a ilusão poética te invadir
facilmente
não resista ao vício
da literatura!

Neste mundo duro,
só encontramos esperanças
no amor, nas letras, nas linhas
e
nas estradas que ligam
os encontros,
ainda que só no papel
ou nas redes.

Embriago-me com tua poesia e
iludo-me com uma gentileza
que nunca virá,
quiçá só nas palavras…

Iludo-me com as palavras.

As coisas, as pessoas, você e eu
somos, na verdade,
resultados de sonhos e
planejamentos de amor.

Permita-me sentir a chuva
numa escrita distante
em silêncio
ao lado teu…

G.

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